10 agosto 2011

Corte em diárias diminui policiamento ostensivo

Durante três noites, uma equipe de reportagem da TRIBUNA DO NORTE formada pelos repórteres Alex Régis e Ricardo Araújo, percorreu avenidas, ruas e vielas de Natal com a missão de encontrar uma ou mais blitzen da Polícia Militar. Foram quase 250 quilômetros percorridos em todas as regiões da capital durante as noites e madrugadas da sexta-feira (05), sábado (06), domingo (07) e segunda-feira (08). Do Sul ao Norte, do Oeste ao Leste, nenhuma barreira policial ou operação foi vista pela equipe.

Na zona norte de Natal,duas viaturas estavam paradas em frente a uma badalada casa noturna na madrugada de sábado passado.
Até mesmo o simples fato de cruzar com uma viatura policial durante o deslocamento de um ponto a outro, não ocorreu repetidamente. Na sexta-feira, o primeiro veículo da Polícia Militar foi visto três horas e quinze minutos depois do início da apuração da reportagem. Ocorreu na Avenida Erivan França, em Ponta Negra, às 0h15min.

Os flagras aos atos de infração às leis de trânsito e comercialização de drogas, foram diversos. Condutores em alta velocidade, desrespeito às placas de trânsito, tráfico e consumação de entorpecentes, prostituição. Nem mesmo nos bairros cujo histórico de violência remete ao constante patrulhamento, haviam barreiras policiais neste último final de semana. Aos criminosos e bandidos, um convite à impunidade.

Badalação, drogas e falta de fiscalização

São 21h30min. A sexta-feira é o dia escolhido pela maioria dos moradores das zonas Sul e Leste para um happy hour. Bares e restaurantes estão lotados. O tráfego de veículos é intenso. Com o intuito de chegar mais rápido ao destino final, motoristas e motociclistas excedem os limites de velocidade em todas as vias percorridas pela equipe de reportagem.

Nos postos de gasolina, adolescentes e adultos faziam o "aquecimento pré-balada". O consumo de bebidas alcoólicas é indiscriminado. Além dos paredões que tocam música em níveis superiores ao permitido pela legislação. Nenhuma viatura policial estava por perto.

Na Vila de Ponta Negra, a situação não era diferente. O tráfico de drogas e violência são problemas antigos na área. O comerciante Mário Costa do Nascimento, conhece bem esta realidade. Ele foi vítima de uma bala perdida durante tiroteio entre bandidos no ano passado. Ele relatou que o tráfico de drogas não diminuiu nos últimos tempos.

De acordo com moradores, a comercialização de drogas é intensa a qualquer hora do dia na rua das Marianas, no campo do Botafogo e num local conhecido como Carroça. Lá podem ser encontrados crack, maconha, cocaína, ecstasy e até LSD.
Na praia do Meio, outro ponto de apoio da PM também permanece fechado durante a noite. A equipe da TN esteve no local na madrugada do sábado (01h30)


 
Descemos para a praia. A primeira viatura da Polícia Militar é vista na Avenida Erivan França às 0h45min. Por menos de cinco minutos, os policiais conversam com um cidadão que bebia no calçadão e depois seguem com destino ignorado. Nenhuma abordagem é realizada. Enquanto isso, o tráfico de drogas e prostituição fluem sem nenhuma intervenção policial na Rua do Salsa, em Ponta Negra. Mesmo adesivado, o veículo que conduzia a equipe de repórteres é abordado. O flanelinha, além de oferecer o serviço de guardar o carro, oferece drogas.

Somente após cruzarmos toda a Via Costeira, onde o posto de fiscalização permanente da CPRE estava fechado, uma outra viatura é vista nas proximidades de um condomínio em construção, em Areia Preta. Um policial visualiza o movimento da avenida, enquanto os demais conversam com seguranças privados dentro na guarita do empreendimento. São 2h05min da madrugada do sábado.

Zona Norte: policiamento em festa

A noite do sábado é, geralmente, marcada pelas festas no North Show, na zona Norte. Diferente das demais avenidas e ruas que compõem a região mais populosa da capital, duas viaturas da Polícia Militar faziam a segurança dos que se divertiam no local. Nem mesmo os bairros com um histórico de violência, como Pajuçara, Nova Natal e Jardim Progresso, dispunham de viaturas fazendo rondas naquele horário.

Na Redinha, próximo ao Mercado Público, jovens se divertiam numa festa particular. Num outro ponto, mais recuado e escuro, casais praticavam atos libidinosos. Nas ruas, somente animais soltos. Um risco a mais para motoristas desatentos. Nenhum policial por perto. Na área comercial do bairro, o fluxo de veículos era intenso.

Alguns dos motoristas trafegavam em alta velocidade e levavam até oito passageiros. Os comércios lucravam com a venda de bebidas alcoólicas. "A viatura até passa por aqui, mas o número é pequeno. Nos finais de semana, é mais complicado", resumiu o comerciante Jomaci Gomes.

Nas proximidades do semáforo que dá acesso à ponte Newton Navarro, visualizamos a primeira viatura desde às 23 horas. Eram 0h10min, quando dois policiais do Comando de Policiamento Rodoviário Estadual abordaram dois motoqueiros. A abordagem, entretanto, não fazia parte de uma blitz.

De acordo com um dos PM´s, o maior índice de homicídios é praticado por homens em motocicletas. Às 1h30min, ao cruzarmos a ponte com destino ao centro da cidade, percebemos que o posto de fiscalização da CPRE está fechado.

Violência na madrugada de domingo

Nas ruas escuras e estreitas de Felipe Camarão, Cidade Nova, Bom Pastor e Planalto, um refúgio para criminosos. A noite do domingo, conforme levantamento da própria Polícia Militar, é o momento no qual ocorrem, geralmente, homicídios na capital. São 22 horas. Moradores do Planalto e Pitimbu retornam para casa após o culto, missa ou passeio. Outros bebem em botecos e bares às margens das avenidas principais.

Cruzamos as Avenidas Monte Rey, Mira Mangue e Paracati, no Planalto. Nem sinal de viatura policial. Seguimos rumo ao bairro de Felipe Camarão, cruzando por Cidade Nova. Passamos por toda a extensão da Avenida Santa Cristina, onde vendedores de drogas se posicionam nas entradas das vielas, onde são protegidos pela escuridão, além das armas que escondem por debaixo da camisa.

Ao chegarmos numa funerária que funciona em frente à 14ª Delegacia de Plantão, moradores nos informam que um homem havia sido baleado no rosto há poucos minutos no bairro de Cidade Nova. Quando um outro morador se aproxima da equipe de reportagem, disse que dois homens haviam sido mortos em Mãe Luiza.

São 23h15min e não havíamos cruzado com nenhuma viatura policial por todos os bairros pelos quais havíamos percorrido. Rumamos à Mãe Luiza. De uma das vielas do morro, saíram os corpos rumo ao Itep. Os braços cruzados, olhares desconfiados e o silêncio dos moradores, refletiam o medo em delatar os criminosos. Após o ocorrido, os policiais seguiram para o descanso, como relatou um deles. Os bandidos, porém, não descansam e se sentem convidados à impunidade.

Bate-papo
» Cel. Francisco Araújo comandante-geral da PM

A população relata que não vê a realização de blitzen em todas as regiões da capital. Houve uma diminuição deste tipo de ação?

Houve sim. Houve uma diminuição na quantidade de barreiras policiais. Essas barreiras são feitas por policiais que estão de folga e que são chamados. Reduziu a quantidade de diárias operacionais, de dinheiro para pagar os policiais. Por isso, a gente diminui a quantidade de blitzen e estamos fazendo de forma setorizada por bairro. Mas aquela blitz com barreira que se coloca cones e os policiais ficam parados, nesta última semana nós não fizemos.

Como funciona a logística do patrulhamento noturno?

Nós temos as viaturas da polícia comunitária, temos as motocicletas da ROCAM (Ronda Ostensiva com Apoio de Motocicletas) que trabalham até às 23 horas e as viaturas do Batalhão de Choque que suplementam determinadas áreas. Atualmente, nós estamos fazendo uma intensificação em dois locais de Natal: Mãe Luiza e no bairro de Nossa Senhora da Apresentação, que contempla três conjuntos: Jardim Progresso, Planície das Mangueiras e Parque dos Coqueiros. Nesta última semana nós trabalhamos nestes pontos.

O resultado dessa operação foi positivo?

Foi positivo. Enquanto nós estávamos operando nesses locais, não foi registrado nenhum tipo de ocorrência.

Isso gera, por exemplo, a ação de bandidos em outros bairros?

Não. Pela tabulação do Ciosp, não houve aumento em outros locais.

Por que as blitzen não são realizadas semanalmente?

Nós não podemos manter esse tipo de blitz direto. Isso acostuma os bandidos. Eles passam a saber onde é que tem a barreira. Então, a blitz é realizada em dias, horários e pontos alternados. Ela não pode ser no mesmo local. A gente muda o modus operandi da PM. Em um período a gente faz blitz em todas as avenidas, no outro a gente suspende e faz ações localizadas em bairros.

Quais são os critérios avaliados pela PM para este tipo de operação?

Nós fazemos o geoprocessamento e georeferenciamento. O Ciosp tem a tabulação dos locais onde ocorrem fatos a partir de ligações. Então, nós direcionamos o policiamento, fazemos um policiamento inteligente. Ou seja, nós colocamos os policiais onde as pessoas pedem, onde há ligação, onde há ocorrência de assalto, de desordem, de furto, roubos. Então a gente intensifica na área mais crítica.

Mesmo com essas ações direcionadas a determinados bairros, casos como o duplo homicídio que ocorreu em Mãe Luíza na noite do domingo passado, não poderiam ser evitados?

Certamente. Foi um acerto de contas. É um duplo homicídio. Nós nos reunimos na manhã de hoje (ontem) com oficiais. Nosso objetivo é planejarmos uma ação mais eficaz dentro de Mãe Luiza, principalmente à noite.

Fonte:tribunadonorte

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